A vida de Sandra da Silva de Paula mudou radicalmente há dois anos, quando foi internada na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Zona Norte de Maringá. Após um conjunto de sintomas aparecerem de forma violenta, ela deu entrada com um quadro bastante preocupante e, até então, misterioso: não falava, respirava mal, estava com os membros superiores inchados e não conseguia se manter em pé.
Após a internação, que durou três dias na UPA, ainda sem diagnóstico, foi transferida para o Hospital Universitário (HUM) da Universidade Estadual de Maringá (UEM) para uma bateria de exames. “Fiz uma série de exames no HU e fecharam, depois, o diagnóstico de lúpus”, comentou. Então trabalhando em uma fábrica, Sandra teve de interromper as atividades por um tempo para iniciar o tratamento, que envolve, a depender do quadro, administração de medicamentos como hidroxicloroquina, anti-inflamatórios não-esteroides, corticoides e imunossupressores. Iniciou o tratamento no Ambulatório de Reumatologia do HUM, referência de atendimento e acompanhamento a pacientes reumáticos no Noroeste do Paraná.
O Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES) é uma doença autoimune e incurável, uma das mais de cem doenças reumáticas que afetam mais de 15 milhões de brasileiros, segundo dados da Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR). Neste dia 30, é comemorado o Dia Nacional de Luta do Paciente Reumático e histórias como as de Sandra reverberam como exemplos de superação de um tratamento difícil, mas possível.
Hoje com 34 anos e trabalhando como auxiliar administrativa, Sandra vem a cada três meses para acompanhamento médico no Ambulatório. Ela leva uma vida normal e segue em remissão da doença: retomou o trabalho, pratica exercícios regulares e é considerada uma “paciente modelo”. “O processo não foi fácil no começo, mas tive que seguir certinho as orientações e o tratamento. Eu busco criar uma rotina para seguir o tratamento e ter uma boa melhora.”
Ambulatório de Reumatologia: três décadas de história
O Ambulatório de Reumatologia da UEM realizou, em 2026, entre os meses de janeiro e setembro, 2217 consultas com pacientes adultos, além de 194 consultas com pacientes infantis e 560 perícias. Isso representa cerca de 250 consultas/mês, entre os adultos, e 22 consultas mensais de pacientes infantis.
É composto por 15 envolvidos, entre quatro professores, residentes e alunos dos 5º e 6º anos do curso de Medicina da UEM. O ambulatório é integrado com outras disciplinas, como a de Radiologia, passo fundamental para a junção de diferentes especialidades, para que os pacientes tenham um tratamento completo e a demanda, que é grande, seja atendida. O ambulatório também serve de campo de atuação para médicos residentes do segundo ano de outras instituições de Maringá.
Professor do curso de Medicina, Paulo Roberto Donadio foi o responsável pelo pontapé inicial do Ambulatório, em 1993. “No início, eu atendia sozinho, depois ocorreu a entrada de outro colega, o Marco Antonio Araújo de Rocha Loures, em setembro, e também dos estudantes do internato”, explicou. O serviço cresceu rapidamente e, em 2007, a equipe resolveu elaborar um projeto para implantação de um programa de residência médica, sob supervisão de Donadio.
Como a reumatologia é uma especialidade ambulatorial, os atendimentos foram ampliados para todos os dias da semana. Hoje, o Ambulatório atende de segunda a sexta, na parte da manhã, e às terças, quartas e quintas à tarde, além das consultas realizadas com os pacientes internados, quando a equipe é convocada por especialidades de outras áreas. “Foi um trabalho árduo, de anos, mas hoje o HUM é referência na área de reumatologia. O atendimento de pacientes crônicos, principalmente nas doenças autoimunes, é referência aqui”.
Referência na pesquisa
Além de ser uma referência em atendimento, o Ambulatório de Reumatologia também é uma referência científica nos estudos da área. Donadio lembra que a equipe já ganhou vários prêmios, como o famoso prêmio Dr. Acir Rachid, promovida pela Sociedade Paranaense de Reumatologia, tanto nas modalidades de relatos de casos quanto da apresentação de trabalhos científicos. A equipe faturou o prêmio em dez oportunidades, nos anos de 2012, 2013, 2017, 2019, 2020, 2021, 2022, 2023, 2024 e 2025.
Tratamento em evolução
O tratamento de doenças reumáticas evoluiu muito nas últimas três décadas, segundo o médico reumatologista. Depois do advento de medicamentos biológicos, foi possível controlar muito mais efetivamente as doenças, para que os pacientes entrem em remissão e possam ter uma vida normal, sem complicações, desde que sob controle.
“Sem dúvida as doenças crônicas, inflamatórias e autoimunes são de tratamento difícil e isso acaba comprometendo a adesão ao tratamento, mas, aqui, nós temos uma boa adesão, até por sermos a principal referência regional de atendimento. Nossos pacientes têm o Hospital como uma ‘tábua de salvação’, um local onde eles sabem que podem contar com apoio”, completou Donadio.
A médica reumatologista Juliana Yuri Sekiyama ressalta o diagnóstico de uma doença crônica, que requer uso de medicação imunobiológica, na veia ou subcutânea, é desafiador. É necessário, segundo a médica, o conhecimento sobre a doença da parte do paciente, assim como a empatia por parte da equipe. “Sabemos que doenças crônicas às vezes deixam o paciente desanimado. Ele pode começar o tratamento e por vezes parar, mas é importante prosseguirem para entrarem em remissão”, pontuou.
Atualmente, o diagnóstico precoce de doenças reumáticas autoimunes tem evoluído, mas precisa ser intensificado. Esse é um dos principais desafios na área, segundo a reumatologista. “Quanto mais rápido o diagnóstico, mais rápida é a evolução do tratamento. desafio com o acesso de medicamentos e tecnologias, para que possamos utilizar no tratamento aos pacientes”.
(Willian Fusaro/Comunicação UEM)